sábado, 2 de julho de 2011

O comércio de escravos africanos


Desde a antiguidade, onde a escravidão vigorava no paganismo até a introdução da escravidão negra no mundo cristão pelos muçulmanos, no decorrer da história da humanidade, podemos observar que todos os impérios, desde o século XVI até o final do século XIX, fundamentaram-se em sociedades escravocratas.

Havia na África uma rendosa mercadoria, e foram os muçulmanos que desde o ano de 1440, iniciaram a venda dos indivíduos capturadas em guerras entre tribos, de criminosos, de indesejáveis da própria tribo ou aqueles que após a derrota não se convertessem ao islamismo. Têm-se informações que na manhã do dia 08 de agosto de 1444, o primeiro carregamento de 235 africanos, foi desembarcado no porto de Lagos, em Portugal, dando início ao lucrativo comércio de escravos.

Necessitando de mão-de-obra em grande quantidade para suas plantações, de algodão e, em especial, da cana-de-açúcar, portugueses, ingleses e franceses passaram a enviar para suas colônias ultramarinas os escravos oriundos da África.

Segundo fontes históricas, entre os anos de 1492 e 1820, o número de africanos trazidos à força para a América, foi de cinco a seis vezes maior do que o número de europeus que percorreram o mesmo caminho. Essas migrações forçadas arruinaram culturas inteiras na África e construíram novas culturas nas distantes terras do outro lado do Atlântico, contribuindo para o surgimento de comunidades inter-raciais compostas de europeus e africanos, que em nossa visão foi de grande contribuição ao longo dos anos para esses países.

O comércio de escravos favoreceu a todos àqueles que viviam as custas do tráfico proporcionando-lhes imensas fortunas. A Inglaterra, até o século XVIII liderou o comércio dos escravos, proporcionando grandeza na sua economia. Pequenos e pouco importantes portos como os de Liverpool, Nantes, Bristol e Newport, transformaram-se em prósperas, ricas e até sofisticadas metrópoles.

Com relação ao eurocentrismo, podemos dizer que influenciava todo o mundo a reconhecer apenas na Europa os modelos ideais de cultura, de religião e consequentemente de civilização. Através dessa visão a história da África era escrita de forma racista, generalizando os povos africanos como se fossem bárbaros, sem organização social e incapacitados de construir sua própria história, classificando-os dessa maneira, os povos africanos poderiam ser subjugados e escravizados.

O término do comércio de escravos e da escravidão na África teve efeitos enormes sobre o continente Africano. Inúmeras sociedades africanas que durante séculos tinham usufruído de uma economia baseada no trabalho escravo e nas rendas oriundas do comércio de escravos, passaram a ter dificuldades de encontrar novas maneiras de planejar a riqueza através do trabalho e do lucro.

GANDHI - O filme


Sempre orgulhosos, os ingleses não se cansavam de dizer: “O sol nunca se põe no Império Britânico”, e tal afirmação era uma verdade, pois a expansão imperialista inglesa foi tamanha que a Inglaterra, no século XIX, tinha possessões territoriais em todos os pontos do globo terrestre, e neste sentido o sol brilhava em pelo menos algum desses territórios.

Na Índia, no ano de 1869, em Porbandar, nascia uma criança que alguns anos mais tarde se transformaria no homem que fazendo uso apenas da força das palavras e das ações não violentas, obrigará a poderosa Inglaterra a conceder a independência política de sua terra natal. Este homem, franzino de corpo, porém grandioso de alma, recebeu o nome de batismo de Mohandas Karamchand, mas ficou conhecido mundialmente por Mahatma Gandhi.

Desde o século XVI os ingleses haviam instalado feitorias em diversas cidades do subcontinente indiano, dentre elas podemos destacar Calcutá, Bombaim e Madras. Desta maneira, o território indiano ficou sob forte influência dos ingleses e mais tarde acabou sendo anexado à Inglaterra.

Na segunda metade do século XIX, a Índia era o território colonial mais importante da Coroa Britânica. A forte presença dos britânicos não se fazia presente apenas nos costumes locais, mas também na política exercida pelos administradores ingleses.

A economia indiana estava alicerçada nas manufaturas têxteis de algodão, e o artesanato de tecidos indianos, famosos de longa data pela sua qualidade e beleza, foi destruído pela crescente introdução de tecidos e algodão produzidos nas fábricas inglesas, levando a ruína milhares de artesão indianos.

Os ingleses, em sua expansão pelo território indiano, construíram estadas de ferro com a certeza absoluta de altos lucros. A população indiana era obrigada a pagar altas taxas aos ingleses. Mais da metade da população vivia em péssimas condições de subsistência. Por todos esses motivos o ódio pelos britânicos crescia mais e mais a cada dia entre a população indiana.

No filme sobre Gandhi, se prestarmos atenção, podemos perceber todos os fatos descritos acima. Gandhi estudou Direito em Londres de 1888 até 1891, indo residir na África do Sul, outro território dominado pela Inglaterra, e lá tomou para si a defesa da comunidade dos indianos submetidos ao racismo dos ingleses.

No filme vemos sua volta à Índia no ano de 1915, agora com 46 anos de idade, ele ainda é leal aos britânicos. No ano de 1917, Gandhi foi detido por ter ajudado os indianos que trabalhavam em tecelagens e que eram explorados pelos proprietários dessas tecelagens, porém as autoridades perceberam que ele era a única pessoa a qual as multidões obedeciam. Gandhi muda de opinião depois do massacre de Amritsar, ocorrido em 1919, no qual os ingleses atiraram em milhares homens, mulheres e crianças que se reuniam num festival religioso na cidade.

A partir do massacre de Amritsar, Gandhi aderiu na luta contra o domínio inglês, como aparece no filme, ele passa a ser o líder incontestável na luta das massas exploradas pelos ingleses, sendo aprisionado diversas vezes.

Gandhi uniu e mobilizou os hindus e os muçulmanos através de sua religiosidade e perspicácia política. No filme, podemos ver o boicote contra os tecidos industrializados na Inglaterra e o seu apoio ao retorno da fiação e tecelagem manual.

No filme vemos também a marcha até o mar, na qual Gandhi liderou milhares de indianos, na chamada Marcha do Sal, para mostrar para as autoridades inglesas que o sal do mar pertencia a todos e não apenas aos ingleses. Gandhi colocou em prática a política de desobediência civil baseada no princípio da ação não violenta, e pelo uso de jejum como forma de protesto.

Finalmente, a Índia conquista no ano de 1947 a tão esperada independência dos ingleses. Porém no dia da transferência do poder para os indianos, Gandhi não comemorou a independência de seu país com o restante da Índia, preferiu ficar sozinho lamentando a partilha do país entre a Índia hindu e o Paquistão muçulmano.

No filme podemos ver o seu assassinato, causado por um hindu que responsabilizava Gandhi pelo enfraquecimento da nação indiana, no filme não mostra, mas contrariando a vontade do próprio Gandhi, que não queria a punição de seu assassino, ele acabou sendo julgado, condenado e enforcado. Quanto a Gandhi, seu corpo foi cremado e as suas cinzas jogadas no rio Ganges.

Lorde Kitchener, um dos mais importantes defensores do imperialismo inglês proferiu a seguinte declaração: “Foi essa consciência de nossa superioridade inata que nos permitiu conquistar a Índia. Por mais educado e inteligente que seja um indiano, por mais valente que ele se manifeste e seja qual for a posição que possamos atribuir-lhe, penso que jamais ele será igual a um oficial britânico”. Pois ele pensou errado, nas suas atitudes pacificas, na simplicidade do seu coração e na firmeza de suas decisões, Gandhi entrou para a história da humanidade e o seu triunfo mudou o mundo para sempre.


Participação do Brasil na Conferência de Estocolmo


Desde o advento da Revolução Industrial, através da qual os países mais desenvolvidos passaram a explorar os recursos naturais e a encarar a natureza com as suas fontes de energia e matérias-primas como sendo inesgotáveis, foram produzidos por suas indústrias, cidades e atividades agrícolas, dejetos que causaram ao longo dos anos impactos ambientais, muitos deles de abrangência global gravíssimos.


Os resíduos lançados no ar pelas indústrias poluíram tanto o meio ambiente ao longo dos anos, que acabaram por provocar sérios problemas de saúde para as pessoas. A poluição do ar foi a primeira grande questão a ganhar destaque no início da década de 70 do século passado.


Foi realizada no período de 05 a 16 de junho de 1972, em Estocolmo, na Suécia, promovida pela ONU, a primeira Conferência Internacional sobre o Meio Ambiente Humano, reunião na qual participaram 113 países. A Conferência de Estocolmo foi marcada pela polêmica entre os países defensores do “desenvolvimento zero”, ou seja, pelos países industrializados, e os defensores do “desenvolvimento a qualquer custo”, representados pelos países não industrializados ou em vias de industrialização, como no caso do Brasil.


As propostas que foram apresentadas na Conferência de Estocolmo foram baseadas no relatório “Limites para o Crescimento”, divulgadas pelo Clube de Roma, que reuniu especialistas norte-americanos e europeus, e que afirmavam que os recursos naturais da Terra não seriam suficientes para toda a população do planeta, e por isso sugeriram que os países pobres não crescessem mais.


O Brasil, por indicação da Assembléia Geral da ONU, integrou a comissão preparatória. Na ocasião o Brasil liderou 77 países, e a sua posição em relação as questões ambientais colocadas pela conferência recebeu endosso dos países do chamado Terceiro Mundo. A posição defendida era de que todos os países tinham direito ao crescimento econômico, mesmo sendo as custas de grandes degradações ambientais. Nessa época o Brasil estava sob o governo militar e em pleno milagre econômico.


Na ocasião, apesar de reconheceram a ameaça da poluição ambiental, os delegados brasileiros sugeriram que os países mais desenvolvidos é que deveriam arcar com o ônus dessa purificação, e deixaram bem clara a posição do Brasil, que preferia promover o crescimento econômico a qualquer custo em detrimento a qualquer política ambiental.


Apesar da posição antagônica do Brasil em relação as decisões tomadas pela Conferência de Estocolmo, podemos dizer que essa Conferência foi de grande importância para a humanidade, pois foi o primeiro grande encontro internacional, no qual participaram representantes de muitas nações para juntos discutirem os problemas ambientais e também foi discutida pela primeira vez a relação entre desenvolvimento e meio ambiente.


Finalizando, a referida Conferência, apesar de ter sido conturbada, acabou por produzir um documento histórico, composto por 24 artigos que foi assinado pelos países participantes e que resultou na criação do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente(PNUMA), ou seja foi criada a primeira agência ambiental global.

sábado, 19 de março de 2011

A Revolução Industrial



Ao conjunto de modificações econômicas ocorridas nos séculos XVII e XVIII, na sociedade européia, damos o nome de Revolução Industrial. Porém tal definição não é satisfatória, devendo ser ampliada como sendo o conjunto de transformações ocorridas na agricultura, no comércio, nos transportes, na indústria, em resumo, em toda a economia que se tornou capitalista.


Quando falamos em Revolução Industrial, pensamos imediatamente na Inglaterra, com as suas máquinas a vapor, suas locomotivas, seus navios movidos a vapor e os seus teares, usados por este país para produzir e transportar enormes quantidades de mercadorias vendidas para todas as nações do mundo.


A Inglaterra, ao longo da Idade Moderna, conseguiu criar condições para se tornar o país mais rico do mundo através da acumulação de capitais e a liberação da mão-de-obra desencadeando desta forma a Revolução Industrial. A acumulação de capital é o processo onde se concentra os meios de produção e as grandes somas de dinheiro em poder de uma minoria: a burguesia. Já o processo de liberação da mão-de-obra representou a criação do proletariado, cuja força de trabalho é a única riqueza que os seus componentes, os trabalhadores, possuem.


No início do século XVIII, a Inglaterra era a nação mais rica e poderosa do mundo. Possuidora de grandes jazidas de carvão e ferro, sem mencionar a supremacia naval, os seus portos e as suas estradas que facilitavam o escoamento de seus produtos.


Com o crescimento do mercado consumidor, os burgueses começaram a utilizar em suas manufaturas novas tecnologias. Com o surgimento da máquina de fiar, criada em 1764, por James Hargreaves, uma única pessoa realizava o trabalho equivalente ao de oito trabalhadores. Quatro anos mais tarde um tear movimentado pela força da água produzia fios de algodão em maior quantidade e de melhor qualidade.


Porém no ano de 1769, James Watt desenvolveu um equipamento que se utilizava do vapor da água para gerar uma energia tão forte que impulsionava máquinas a uma velocidade nunca antes conseguida. Nos anos que se seguiram, através dos aperfeiçoamentos da máquina a vapor houve um desenvolvimento industrial gigantesco, que se refletiram na siderurgia, na metalurgia e no surgimento das primeiras locomotivas a vapor, inventadas no ano de 1808.


Destacamos na primeira etapa do desenvolvimento capitalista, o chamado “Capitalismo Comercial”, caracterizado pelos monopólios advindos do Pacto Colonial e das grandes navegações entre o rei e os comerciantes. Numa segunda fase, que coincide com a Revolução Industrial, o “Capitalismo Industrial” fundamenta-se na propriedade privada e nos meios de produção dominados pela burguesia, que passou a ter total controle sobre a economia, podendo vender, comprar, investir e fazer circular as riquezas produzidas. E posteriormente o chamado “Capitalismo Financeiro”, que corresponde a um tipo de economia capitalista em que o grande comércio e a grande indústria são controlados pelo poderio econômico dos bancos e outras instituições financeiras.

domingo, 19 de dezembro de 2010

Contextualização Sócio-Histórica e Política da Educação no Brasil


Nascido à sombra da Santa Cruz, o Brasil recebeu os jesuítas apenas nove anos após a criação da Companhia de Jesus. No ano de 1549 juntos com o Governador Tomé de Souza, chegavam à Bahia os primeiros padres jesuítas, chefiados pelo padre Manoel da Nóbrega.

Movidos por intenso sentimento religioso de propagação da fé cristã, durante mais de 200 anos, os jesuítas foram praticamente os únicos educadores do Brasil. Embora tivessem fundado inúmeras escolas de ler, contar e escrever, através de um decreto de Sebastião de Carvalho e Mello, o Marquês de Pombal, no ano de 1759 os jesuítas foram expulsos de Portugal e de suas colônias, abrindo um enorme vazio que não foi preenchido nas décadas seguintes.

As medidas tomadas pelo Marquês de Pombal, sobretudo a instituição do Subsídio Literário, imposto criado para financiar o ensino primário, não surtiu grande efeito. A educação, já tão deficiente, não melhorou com os professores mantidos pelo subsídio literário pago pelos colonos através de impostos sobre a carne, o sal, o vinagre, o vinho e a aguardente.

Em 1808, com a mudança da sede do Reino de Portugal e a vinda da Família Real para o Brasil Colônia, a educação e a cultura tomaram um novo impulso, com o surgimento de instituições culturais e científicas, de ensino técnico e dos primeiros cursos superiores. Foram criadas a Academia de Marinha, a Academia Militar e para atender as necessidades de médicos e cirurgiões, foram criadas na Bahia e no Rio de Janeiro os primeiros cursos de Medicina, Cirurgia e Anatomia.

Todavia a obra educacional de D. João VI, importante em muitos aspectos, voltou-se para as necessidades imediatas da corte portuguesa no Brasil. As aulas e cursos criados, em diversos setores, tiveram o objetivo de preencher demandas de formação profissional. A política educacional de D. João VI, na medida em que procurou, de modo geral, concentrar-se nas demandas da corte, deu continuidade à marginalização do ensino primário.

Com a independência do país, conquistada em 1822, algumas mudanças no panorama sócio-político e econômico pareciam esboçar-se, inclusive em termos de política educacional. Na Constituição de 1824, foi assegurada a "instrução primária e gratuita a todos os cidadãos", confirmada logo depois pela lei de 15 de outubro de 1827, que determinou a criação de escolas de primeiras letras em todas as cidades, vilas e vilarejos.

A descentralização da educação básica, instituída em 1834, foi mantida pela República, impedindo o governo central de assumir posição estratégica de formulação e coordenação da política de universalização do ensino fundamental, a exemplo do que então se passava nas nações européias.

Na década de 1920, o setor educacional participou do movimento de renovação. Inúmeras reformas do ensino primário foram feitas em âmbito estadual. Surgiu a primeira grande geração de educadores, Anísio Teixeira, Fernando de Azevedo, Lourenço Filho, Almeida Júnior, entre outros, que lideraram o movimento, tentaram implantar no Brasil os ideais da Escola Nova e divulgaram o Manifesto dos Pioneiros em 1932, documento histórico que sintetizou os pontos centrais desse movimento de idéias, redefinindo o papel do Estado em matéria educacional.

Promulgada após a Revolução de 1930, a Constituição de 1934, consignou avanços significativos na área educacional, incorporando muito do que havia sido debatido em anos anteriores. No entanto, em 1937, instaurou-se o Estado Novo concedendo ao país uma Constituição autoritária, inspirada na ditadura polonesa, registrando-se em decorrência um grande retrocesso. Após a queda do Estado Novo, em 1945, muitos dos ideais foram retomados e consubstanciados no Projeto de Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, enviados ao Congresso Nacional em 1948, sendo finalmente aprovado e transformado no dia 20/12/1961 na Lei nº 4024.

No período que vai da queda do Estado Novo, em 1945, até a Revolução de 1964, o sistema educacional brasileiro passou por mudanças significativas: a instalação do Conselho Federal de Educação, em 1961, campanhas e movimentos de alfabetização de adultos, além da expansão do ensino primário e superior. Na fase que precedeu a aprovação da LDB/61, ocorreu um admirável movimento em defesa da escola pública, universal e gratuita.

O movimento de 1964 interrompeu essa tendência. Em 1969 e 1971, foram aprovadas respectivamente a Lei 5540/68 e 5692/71, introduzindo mudanças significativas na estrutura do ensino superior e do ensino de 1º e 2º graus. Com a aprovação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, Lei Federal nº 9394 de 20 de dezembro de 1996, houve a consolidação e ampliação dos deveres do poder público, em especial atenção, para com o Ensino Fundamental.

A Constituição de 1988, promulgada após amplo movimento pela redemocratização do país, procurou introduzir inovações e compromissos, com destaque para a universalização do ensino fundamental e erradicação do analfabetismo.

A Ditadura Militar de 1964





O ano de 1963 foi marcado por uma forte tensão social, pontuada por várias crises. Tanto a esquerda como a direita, na luta a favor e contra as Reformas de Base, confrontara-se todo o tempo, sem que o governo conseguisse exercer qualquer controle sobre a situação.

Em meados de 1963 o governo abandonava o Plano Trienal, que se revelara incapaz de sustar a crise econômica e financeira. O Brasil ficou dividido e as posições começaram a se radicalizar. Jango se aproximava das correntes reformistas mais radicais lideradas pelo deputado Leonel Brizola, pelo governador Miguel Arraes, e apoiados por inúmeras organizações nacionalistas de esquerda.

Organizada pelas maiores centrais sindicais do país, e na presença de cerca de 200 mil pessoas, trabalhadores, estudantes e grupos de esquerda, e no mesmo palanque usado por Getúlio para os seus comícios, próximo à Central do Brasil, Goulart, ao lado de autoridades militares e civis do governo, decretou a nacionalização das refinarias particulares de petróleo e desapropriou terras a margem das ferrovias, rodovias e em zonas de irrigação dos açudes públicos, ignorando a hesitação do Congresso Nacional em aprovar a reforma agrária.

A reação de repúdio dos conservadores à fala do Presidente no comício da Central veio rápida. Seis dias depois, mais precisamente no dia 19 de março de 1964, organizada pelas senhoras católicas, aproximadamente 400 mil pessoas, a maior parte da classe média, foram para as ruas de São Paulo num dos maiores movimentos de massa que já se tivera notícia: a Marcha da Família com Deus e pela Liberdade em protesto contra a esquerdização do país.

Uma sublevação de marinheiros, na última semana de março, resultando na quebra da hierarquia militar, precipitou a deflagração do golpe decisivo contra o governo. No dia 30 de março, o Governador de Minas Gerais, Magalhães Pinto, divulgava um manifesto conclamando o povo “para a restauração da ordem constitucional comprometida nessa hora”.

No dia 31 de março, teve início o golpe. O primeiro passo foi dado pelo general Olímpio Mourão Filho, comandante da IV Região Militar, em Juiz de Fora. Mourão Filho declarou a cidade como sendo a “capital revolucionária do país”, dirigindo suas tropas para o Rio de Janeiro. Ao contrário do esperado pelos próprios conspiradores civis e militares, não houve reação organizada. Jango afirmou que resistiria, mas desistiu. Miguel Arraes foi preso em Recife. Brizola não tentou reeditar a resistência de 1961, e exilou-se no Uruguai, para onde Jango se dirigiu, no dia 02 de abril, após Auro Moura Andrade, presidente do Senado, ter decretado a vacância do cargo de presidente e empossar o presidente da Câmara dos Deputados, Ranieri Mazzilli, no dia 01 de abril de 1964.

Logo após a vitória do golpe de 64, seus líderes se apressaram em defini-lo como “um movimento legalista”. O general Mourão Filho declarou que Jango fora afastado do poder “de que abusava”, para que “de acordo com a lei, se opere sua sucessão”. Já o general Kruel garantiu que o Exército iria “se manter fiel à Constituição e aos poderes constituídos”. Mas quando o Castelo Branco baixou o AI-2, reduzindo a farrapos a Constituição de 1946, o movimento de 64 se tornou uma ditadura militar de fato. Com a posse de Costa e Silva, em 1967, a linha dura chegou ao poder. Pressionado pela linha dura, e pelas greves operárias e manifestações estudantis, Costa e Silva encontrou um pretexto fútil para decretar, em 13 de dezembro de 1968, o AI-5, chamado de “golpe dentro do golpe”.

Dispostos a colocar em prática suas teses desenvolvimentistas, os militares se mantiveram por duas décadas no poder, promovendo o fechamento político e se impondo a sociedade civil.

As boas notícias de fato vieram, embora devagar, com a posse de Ernesto Geisel em março de 1974. Disposto a promover o retorno aos quartéis e acabar com o “poder paralelo” da linha dura, Geisel deu início ao processo de abertura “lenta, gradual e segura”. De fato lenta e gradual, a abertura, concretizada por João Figueiredo, o quinto general-presidente, foi muito insegura. Além da crise econômica global, instabilidade econômica e a falência do “milagre econômico brasileiro”, a ultradireita reagiu com bombas à anistia assinada por Figueiredo. A medida beneficiou não só guerrilheiros de esquerda mas torturadores de direita. Nos anos 90, familiares de militantes de esquerda receberiam indenizações da União. 



As Ditaduras na Argentina e no Chile



Nos anos 40, grupos militares argentinos estavam insatisfeitos com a subordinação da Argentina em relação ao imperialismo inglês. Esses militares nacionalistas de direita, tomaram o poder num golpe no ano de 1943. No novo governo, um dos ministros se destacava, era o coronel Juan Domingo Perón.

Exercendo a função de ministro do Trabalho, Perón recuperou algumas leis trabalhistas do ex-presidente Irigoyen, e através de medidas que beneficiaram os trabalhadores, ele ganhou enorme popularidade, sendo eleito presidente da República em 1946. Perón, considerado como sendo o “pai dos descamisados” gostava de dizer que o Estado não era “nem capitalista nem socialista”, mas sim justicialista, ou seja, um “promotor de justiça” por meio das leis sociais.

Porém, no ano de 1955, em plena Guerra Fria, o nacionalismo de Perón, acabou por provocar a sua queda, visto que os militares argentinos influenciados pelos norte americanos, acabam por derrubar Perón, que se exilou na Espanha.

A saída de Perón não resolveu os problemas da Argentina. A crise econômica se agravou e os generais se apavoraram com a oposição. Golpes militares se sucederam. A instabilidade política se refletia na economia e finalmente, em 1973, Perón, que havia retornado do exílio, foi reeleito presidente. Mas em julho de 1974, um ano após a sua posse, acaba sofrendo um mortal enfarte e morre. A vice-presidente, era a sua esposa, Isabelita Perón, que assume o governo. Seu governo foi curto, e no ano de 1976, Isabelita, como era chamada, foi destituída por um golpe militar, liderado pelo general Jorge Rafael Videla.

A ditadura que se instalou na Argentina durante os anos de 1976 até 1983 seria uma das mais violentas e repressivas da história da América Latina. A repressão contra os grupos de esquerda levou ao desaparecimento de milhares de pessoas. Entidades de defesa dos direitos humanos estimam que o número de desaparecidos seja superior a vinte mil pessoas.

Desde 1955 até 1983, isto é, em 28 anos de história, a Argentina foi governada por oito generais, enquanto sete presidentes, entre civis e militares, acabaram sendo destituídos por golpes de estado. Nenhum presidente eleito pelo povo argentino concluiu o seu mandato nesse período.

Considerado um país relativamente estável, o Chile desconhecia golpes militares. Sua principal riqueza de exportação vinha das minas de cobre, que pertenciam à multinacionais norte-americanas.

Nas eleições presidenciais de 1970, houve uma grande surpresa com a vitória do socialista Salvador Allende, candidato da Unidade Popular, uma aliança que reunia vários partidos de esquerda, entre eles o Socialista e o Comunista, e grupos cristãos progressistas.

Em seu primeiro ano de governo, o presidente Allende nacionalizou as minas de cobre, as minas de carvão, de salitre, as siderúrgicas, os bancos, as ferrovias, o setor de telecomunicações, a exploração de petróleo e a produção de energia elétrica. Ele reduziu o analfabetismo, aumentou o salário dos trabalhadores e iniciou a reforma agrária no Chile. Com essas medidas houve reação por parte dos setores de direita e do capital estrangeiro.

Estimuladas pelo governo dos EUA, em setembro de 1973, as Forças Armadas do Chile se insurgiram contra o governo constitucionalmente eleito e tomaram o poder por meio de um golpe de Estado, liderado pelo general Augusto Pinochet. Allende defendeu bravamente a democracia com uma metralhadora em punho, mas acabou morrendo crivado pelas balas fascistas.

A ditadura de Pinochet foi uma das mais sangrentas do planeta. O estádio de futebol de Santiago virou um campo de concentração. O governo militar submeteu o Chile a um regime extremamente repressivo, sob o qual milhares de pessoas foram presas, torturadas e assassinadas. Muitos chilenos tiveram de sair do seu país para escapar a repressão.

Em 1988, Pinochet foi derrotado em um plebiscito popular, convocado para decidir sobre a sua permanência no poder por mais oito anos. Com a derrota, o general foi obrigado a convocar eleições para a presidência e entregar o governo ao candidato de oposição, vitorioso, Patrício Aylwin.